O Efeito Bouba-Kiki: comer com os olhos

O efeito Bouba-Kiki: comer com os olhos

Bouba-Kiwi
Image by Bendž Vectorized, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=19653163
Observe as formas acima apresentadas. A qual destas formas chamaria de “Bouba” e de “Kiki”?

Associou a forma angulosa e pontiaguda à palavra “kiki” e a forma arredondada à palavra “bouba”? É muito provável, 95% das pessoas fazem o mesmo. Mas porquê? O efeito Bouba-Kiki foi inicialmente observado pelo psicólogo alemão Wolfgang Köhler, em 1929. Köhler apresentou um questionário idêntico ao acima aos participantes do seu estudo, e observou que existe uma forte tendência em associar certas palavras sem significado, neste caso, “takete” (ou “kiki) e “baluba” (ou “bouba”) a certo tipo de formas.

Antes de mais, podemos pensar em como se dá um nome a um objecto. Sem ponderar muito, poderíamos responder que a atribuição de nomes às coisas é porventura arbitrária. Na realidade, a criação de um nome para algo tem muito que se lhe diga. Conscientemente ou não, nesse momento criativo utilizamos uma série de critérios que moldam a escolha da palavra de forma a que esta reflicta inúmeras qualidades do objecto. Neste campo, pode entrar em jogo o conceito de simbolismo fonético, que implica que o som ou fonema tem um significado próprio. O efeito Bouba-Kiki pode ser uma ferramenta para entender a etimologia, mas também muitos fenómenos neurológicos.

Propõe-se que o efeito Bouba-Kiki seja proveniente de uma associação sinestésica. A sinestesia é uma condição neurológica que leva a que, na presença de um estímulo sensorial, o mesmo seja percepcionado com um sentido adicional. Ou seja, uma palavra pode saber a  chocolate, ou um som cheirar a flores. Isto não quer dizer que soframos todos de sinestesia, contudo, estas experiências reforçam a capacidade do nosso cérebro em conseguir criar uma ligação entre dois ou mais sentidos distintos [1].

Olhando para o fenómeno Bouba-Kiki, é possível entender que o simbolismo fonético é muito relevante quanto à forma como associamos as palavras às formas dos objectos. Em termos linguísticos, palavras que contenham vogais anteriores como [i], [e] e [a], mais agudas e sustenidas, evocam formas angulosas e pontiagudas (ex. “kiki”, “kichiki”, “takete”). Por outro lado, palavras formadas com vogais posteriores como [u], [o] e [c], sugerem formas mais arredondadas (ex. “bouba”, “maluma”, “baluba”). Esta tendência poderá dever-se à forma como as palavras são pronunciadas, associando a mimética dos movimentos bocais.

Vogais anteriores

Bouba-Kiki
Image by Daniel Jones, CC BY-SA 2.5

Vogais posteriores

Bouba-Kiki
Image by Daniel Jones, CC BY-SA 2.5.

O efeito Bouba-Kiki também se reflecte no mundo dos alimentos. De facto, a interacção entre a visão, a audição e o paladar é mais importante do que se poderia imaginar. Ou não comêssemos nós também com os olhos, como diz o provérbio. Na realidade, os sons são muito importantes na forma como encaramos a nossa comida. E aos sons se associam as formas, mas também os sabores. E tudo isto, também intercalado. Vejamos os exemplos abaixo.

O som e a forma

É mais fácil associarmos um dado nome a um prato desconhecido se ele sugerir um simbolismo fonético. Como no caso de um estudo [2], feito no famoso restaurante Fat Duck de Heston Blumenthal, em que se pediu a participantes que atribuíssem a denominação de “kichiki” ou “malomu” ao prato de beterrabas que lhes fosse apresentado. As beterrabas cortadas de forma angulosa e dispostas num formato triangular foram apelidadas pela maioria dos participantes por “kichiki” (imagem à esquerda), enquanto que as beterrabas apresentadas em forma esférica e dispostas num círculo, conseguiram mais votos como “malomu” (imagem à direita). Coincidência? Nem por isso.

Kichiki

Bouba-Kiwi
Photo by Barry Smith, retrieved from BioMed Central blog network, http://tinyurl.com/jrluq4m , CC BY 4.0.

Malomu

Bouba-Kiwi
Photo by Barry Smith, retrieved from BioMed Central blog network, http://tinyurl.com/jrluq4m , CC BY 4.0.

O som e o sabor

O simbolismo fonético também está relacionado com a maneira como projectamos os sabores relativamente a sons ou fonemas: se lhe perguntarem se um alimento é mais “bouba” ou mais “kiki”, provavelmente associará os alimentos doces, redondos e gordurosos a “bouba”, e alimentos ácidos, frescos, amargos, salgados ou cítricos a “kiki” [3]. Para alguns, água com gás é “kiki”, enquanto que chocolate com caramelo é “bouba” [1].

Bouba-Kiki
Brie image from freefoodphotos.com

A forma e o sabor

Por outro lado, as associações sensoriais vão ainda mais além do que o esperado, havendo uma forte ligação entre a percepção das formas e dos sabores. Alguns estudos verificaram que as formas arredondadas estão quase exclusivamente associadas ao sabor doce, enquanto que as formas angulosas podem corresponder a salgado, amargo ou ácido [4].

Esta relação forma-sabor não fica por aqui. Noutro estudo, foi possível observar que o formato em que a comida é apresentada poderá também influenciar a nossa percepção do seu sabor. Por exemplo, se lhe fosse apresentado um cheesecake em formato redondo, e o mesmo cheesecake em formato quadrado, provavelmente acharia o cheesecake com formato redondo mais doce. De facto, parece haver mesmo uma forte ligação sensorial entre o formato redondo e o sabor doce [2].

Muito, ou pouco doce?

Bouba-Kiki

Os nomes e as formas que atribuímos aos nossos alimentos e pratos podem alterar a forma como os percepcionamos. Isto é particularmente interessante se pensarmos na forma como isso afecta directamente o nosso dia à dia. Quando lemos o nome de um prato numa ementa de um restaurante, estamos inconscientemente a avaliar os sabores do prato através do seu simbolismo fonético, e isso pode influenciar directamente a nossa escolha. O formato com que a comida é disposta no prato pode mesmo alterar a forma como a saboreamos. É também importante lembrar que esta informação também é muito apetecível para o marketing de produtos alimentares, onde as marcas tentam conquistar a escolha subconsciente do consumidor ao atribuir nomes ou formas que sejam altamente sugestivas quanto aos atributos do produto que vendem [3,5].

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