O que é um foodie? Confissão: eu não sou.

Lê-se em 5 minutos

The F word

“Foodie”. Há algo no (actual) uso desta palavra que desonra a comida. E não me me estou a referir ao facto de em Português, foodie soar exactamente a fod*. É mais por ser assim uma forma de se querer ser queridinho, mais a brincar do que a sério, sem querer saber muito (ou nada) de gastronomia, mas mais de como é que vai ficar na foto. Dá-me urticária.

E como uma palavra nunca vem só, apareceu também o hashtag #foodie, tão excessivamente pegajoso e contagioso que se cola e espalha como um pólen primaveril. Por sua vez, a Organização Mundial de Saúde emitiu alertas em que adverte que a simples partilha da meia de leite e torrada matinais nas redes sociais com o #foodie pode ser suficiente para iniciar o contágio de um foodie-ismo descontrolado. Seja responsável, evite a propagação de termos infecto-contagiosos.

Outro dos seu parentes próximos é o vocábulo “foodgasm”. Como biólogo, sempre que leio esta palavra só consigo imaginar gado a acasalar. E isso não parece lá muito delicioso.

oh so Publix was just all out of bacon, oh ok.. #breffusforbae

Uma publicação partilhada por Cooking for Bae (@cookingforbae) a

Foodie: uma palavra trintona

Nem sempre terá sido assim. Foi no início da década de 80 do século passado que o termo foodie começou a ser cozinhado, culminando, em 1984, com a publicação do livro “The Official Foodie Handbook” por Paul Levy e Ann Bar. Será possível imaginar o que era ser-se um foodie na era pré-internet? Quando ir a um restaurante podia ser realmente sobre a refeição e não sobre as 15 fotos que se tira no início de cada prato. Especialmente no modo amador em que rebenta o flash que reflete no copo e torna tudo em tigela de cão, comida de gato, e antagonista do apetite. O termo descrevia, à data, e passo a citar: “Separa aqueles que cozinham o borrego até ficar cinzento, e desonram a sua morte prematura ao juntar-lhe molho de menta, daqueles que preferem o queijo de cabra. E aplica-se à agricultura, compras e marketing, bem como ao acto de comer, aos cozinheiros domésticos, aos chefs, aos ingredientes, às marcas, à leitura, e tanto às mulheres como aos homens.”.

Por isso pergunto o que terá acontecido entre essa época e o os dias de hoje, em que o uso desta expressão se tornou tão vazio, visto que no fim de contas “toda a gente é um foodie”. Talvez nunca terão existido tantos entusiastas assumidos pela cultura gastronómica como agora, e que na comida (e bebida), por si só, encontram o seu parque de diversões. Mas isto está longe de ser a maioria, talvez plataformas como o Tripadvisor e a Zomato tenham feito o chamamento a todos os “foodies” adormecidos, que formaram fileiras para tecerem sua crítica gastronómica até mesmo ao McDonalds. E isto sem que tenhamos nada contra a Zomato, usamos sempre que estamos um bocado perdidos.

Mas há mais do que isto. O termo foodie subiu na vida e rapidamente se tornou – e afirmo isto sem reservas – na maior arma de marketing no universo alimentício. “As 15 tascas do Porto/Lisboa para foodies” ou o “Cantinho dos foodies”, são só dos mais simples apelos que se proferem e que fazem ‘plim’ na caixa registadora.

No meio disto tudo ficamos sem saber onde se encaixa aquele senhor nos seus 60 anos que conhece aquela tasca recôndita que serve o melhor choco frito e que a Timeout ainda não descobriu (ou teve medo de lá entrar), mas não tem instagram, é um #foodie? Ou a avó que tem um receituário soberbo de sopas, peixes, carnes e sobremesas e trata de um festim para 15 pessoas como se de um jantar a dois se tratasse, mas não faz tweets, é uma #foodie?

Conclusão, se anda a perder tempo a chamar-se foodie, provavelmente não o é. E não há nenhum problema nisso.

Se ainda lhe restam dúvidas, o chef Bruno Lebot elaborou uma lista que o ajudará a entender quão louco realmente é pelo mundo gastronómico. Fica aqui a versão curta:

1. Consegue trinchar e desarticular um frango?

2. Já fez um éclair?

3. Alguma vez defumou salmão ou alho?

4. Tem um maçarico de cozinha?

5. O seu conjunto de facas custou mais do que o seu primeiro carro?

6. Já se dedicou a apanhar mexilhoes?

7. Já manteve algum fermento-mãe de pão por mais de um ano?

8. Já comeu perdiz na primeira semana da época de caça?

9. Já comeu no Sueco Favikan?

10. No seu jardim, tem um forno de pizzas?

11. Já arriscou a sua vida para comer o venenoso Fugu?

12. Já provou a manteiga King (King’s Butter)?

13. Já provou gelado salgado?

14. Já se aventurou a recolher alimentos selvagens?

15. Consegue preparar um consumé cristalino?

Por muito exagerado que lhe pareça, uma coisa é certa: tanto se trata de comer como de saber cozinhar, bem como do tempo e outros recursos que dedica à comida, tal como a qualquer outro hobby. Mas para corresponder inteiramente a esta lista bastam-lhe duas coisas: ser muito abastado e estar disposto a morrer por comida.

Sendo assim, ainda se sente um foodie?

#foodie #foodgasm #foodiesforlife #foodporn #peçodesculpa

Related / Relacionado

Deixar uma resposta